Ianni: Tipos e mitos do pensamento brasileiro

Ocorre que o escravismo entra em declínio e termina como regime de trabalho escravo, forçado, compulsório, subordinado, totalmente alienado. Simultaneamente, intensifica-se a imigração de europeus, enquanto “braços para a lavoura”, destinados a substituir o escravo e, simultaneamente, “branquear”, “europeizar” ou “arianizar” a população, a sociedade, a cultura, a civilização. De repente, toda uma cultura do trabalho como atividade do “trabalhador escravo” precisa ser abandonada ou redefinida em termos do trabalho como atividade do “trabalhador livre”. De repente, todos são desafiados a redefinir a ética do trabalho. Desenvolve-se um vasto e complicado processo sociocultural, psicossocial e ideológico destinado a conferir dignidade ao trabalho e ao trabalhador. Daí os tipos, como estereótipos sátiros, irreverentes e críticos, inocentes e negativos, com os quais se taquigrafam e exorcizam traços, figuras e figurações, ou modos de ser que a nova ideologia dominante rejeita. É claro que o “homem cordial”, “Macunaíma”, “Pedro malazarte” e “jeca tatu”, lembrando a “preguiça” e a “luxúria”, levam consigo várias e notáveis significações, participando da composição e movimentação do imaginário da sociedade e dos seus diferentes setores sociais, em diferentes modulações. Mas também é possível reconhecer que pode haver algum parentesco entre o “homem cordial” e “Macunaíma”, entre outros, lembrando a “preguiça” e a “luxúria”, como figuras e figurações com as quais também se satanizam valores, ideais e modos de ser que florescem nas cercanias da casa grande, longe das senzalas. O que está em causa, implícito, subjacente ou evidente, é a gênese da nova ética do trabalho, como atividade dignificante. Por isso é que “jeca tatu” sofre tanto.

Diante da realidade histórico-social complexa e problemática, elaboram-se tipos, com os quais a realidade se revela inteligível. Aos poucos, no entanto, pode ocorrer a ideologização ou reificação, o que promove a metamorfose do tipo em mito. Então, acentua-se a distância entre a realidade e o tipo; e, mais ainda, entre a realidade e o mito. Assim, a realidade desloca-se, afasta-se, evapora-se, torna-se inofensiva.

O que está em causa é “despolitizar” a sociedade civil em formação, defini-la e organizá-la desde cima, tomá-la como pouco ativa e pouco organizada, gelatinosa, carente de tutela. Daí o Estado forte, demiurgo, oligárquico, autoritário e tirânico. Tudo isso como expressão de uma cultura política arrogante e opressiva produzida no curso de séculos de escravismo. Daí porque amplos setores das classes dominantes, ou suas “elites”, continuam a agir no mando e desmando das coisas públicas e privadas como desfrutadores, colonizadores, conquistadores.

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